Por causa dos últimos sonhos que andava tendo, Hermes não
estava mais conseguindo dormir direito, não que os sonhos fossem ruins, não
eram pesadelos nem nada, o problema desses sonhos era exatamente o contrario,
deprimia se com a realidade quando se descobria que estava sonhando. E esses
sonhos geravam grandes expectativas misturadas a um aperto no coração, gerado
pela culpa de se estar vivendo um sonho e deixando uma realidade. Toda essa
confusão de sentimentos levava Hermes a ficar fitando o teto, ou o sua
lembrança do teto, já que ficava no escuro.
E ficar
acordado o levava a pensar em como vivia mal, não era mérito dos sonhos serem
tão bons, a culpa era da sua vida que, de tão desinteressante gritava por uma
fuga, uma fortaleza contra a enxurrada de coisas que não queria, nem podia
deixar de fazer. Hermes sentia que enquanto seguisse essa corrente, sua vida
pertencia ao mundo, não a si próprio.
Afinal,
com um mundo tão angustiantemente infinito, não conseguia decidir qual deveria
ser o seu rumo, e com isso, como todo o resto da humanidade, escolhia viver na
zona de conforto que a vida lhe trancafiou. Era isso, uma prisão, o que lhe
dava prazer falso e momentâneo, era também o que impedia de ser ele mesmo.
- A
pior prisão é aquela que é fácil de ficar! – Constatou sozinho. – E como
assim? - prossegue ele com o monólogo na
escuridão do seu quarto. – Eu sou preguiçoso, todo mundo é, e por isso, quando
algo exige um esforço, a gente desiste, pra manter as coisas que a gente quer.
Por exemplo, eu não quero envelhecer sem fazer uma dúzia de coisas que eu
sempre ignoro com medo de ficar sem dinheiro, sem emprego, sem uma casa com uma
televisão, mas eu já estou sempre sem dinheiro, odeio o meu trabalho e nunca
assisto televisão, que só me entedia. Mas eu não mudo, pois essas coisas fazem
parte da minha zona de conforto e eu tenho medo de querê-las quando eu perder.
E exatamente essa a coleira que a vida me põe. É como invejar os pássaros e ter
medo de altura.
E
lentamente, mas totalmente sem controle seu sono venceu seu estado de espírito perturbado,
trazendo um angustiante, porém maravilhosos sonhos. Nesse sonho, com um pano de
fundo medieval, sonhou que era uma força da natureza, não como um mestre, mas
como um componente. Nesse sonho, chamavam no de mago, alquimista, feiticeiro; E
isso o fazia incrivelmente feliz. Podia sentir a textura da realidade como quem
sente um tecido de seda deslizar por sobre o corpo. Podia manipular suas características
e ditar seu comportamento.
E ouvia
o alerta de seu professor, quanto ao perigo do envenenamento pelo seu próprio
ego, seu orgulho poderia ser seu maior obstáculo, ou talvez até seu nêmesis.
Mas no momento que iria prosseguir com uma discussão, Hermes o interrompe e diz
que seu nêmesis ele já conhecia, era seu próprio cinismo em relação a si
próprio que o impedia de ser um mago o tempo todo. E pior, esse cinismo estava
ganhando a batalha e levando seu coração para longe do seu mundo...
Ao sentir essas palavras saindo da sua própria
boca, totalmente sem o controle da sua vontade, ele acorda assustado e geme
alto. Em seguida deita novamente, deprimido demais para acender a luz do quarto
e fica lamentando o fato de seu professor não existir, da magia estar somente
na sua lembrança do sonho.
continua...
continua...

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